O Canto da Coruja

sitio - 20181023

Quando eu comprei a primeira metade da propriedade que hoje se chama “Sítio ‘O Canto da Coruja'”, ele se chamava “Sítio ‘São Benedito'”. Sendo de família protestante — mais do que isso, presbiteriana conservadora — eu não podia manter o nome. Como no primeiro dia que vi o sítio, 6 de Setembro de 2001, eu vi, na entrada, algumas corujas empoleiradas, em um canto do caminho, sobre os mourões da cerca, e, em visitas subsequentes ao local, ouvi a sua voz, ou seja, o seu canto, resolvi batizar o sítio, antes mesmo de finalizar a sua compra, com um nome que porta em si uma ambiguidade: “O Canto da Coruja”. Tanto aquele canto em que, no dizer do radialista Sílvio Luís, “a coruja faz o ninho”, como aquele canto, melodioso e triste, com o qual ela faz com que o resto do mundo saiba que ela está por perto.

Entre 6.9.2001 e 12.9.2001 o negócio foi fechado e compromissado. Em 20.9, a escritura foi passada. Comprei-o de Dona Iná, uma senhora bondosa, sul-mato-grossense, que, quando de sua separação ficou com 16 alqueires de terra. A gleba que adquiri dela, tudo que lhe restava na ocasião, tinha 4 alqueires. Dei-lhe 60 dias para se mudar do sítio, como ela pediu. Acabou se mudando para Indaiatuba, para abrir um negócio, que não deu certo, e acabou voltando para o seu Mato Grosso do Sul. Nunca mais a vi, depois de 2001.

Muitos dos meus amigos me advertiram que quem compra um sítio tem duas alegrias: uma, quando compra; outra, quando dele se livra. Em Setembro fará 19 anos que tive a primeira alegria, e, desde então, em nenhum momento quis me livrar dele. Na verdade, em 2007, adquiri outros quatro alqueires, adjacentes, e o lugar ficou ainda mais escondido, como eu queria — recôndito mesmo.

Nem tudo foi alegria, no sítio. Seis meses depois de adquiri-lo, e quatro meses depois de tomar posse dele, tive, nele, no dia 1o de Março de 2002, um enfarte agudo do miocárdio, que quase me tira a vida. Depois de passar dez dias hospitalizado, a maior parte do tempo na UTI, recebi alta no dia 11 de Março, dia em que nasceu minha neta mais velha, Olivia, lá nos Estados Unidos.

Durante cerca de 14 anos o sítio foi um lugar de lazer, em que ficávamos, eu e minha família, em fins de semana, feriados, férias. A partir de Dezembro de 2015, porém, o sítio se tornou nosso local de residência permanente. Transferi para cá meu Título de Eleitor, minha Carteira de Habilitação, o Registro do meu Corolinha, que comprei no mesmo ano em que adquiri o sítio — só que em 1o de Abril. A razão para a mudança foi que a Paloma passou no Concurso para Professora do Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo (IFSP), campus de Capivari, que fica a cerca de 25 km do sítio na Rodovia do Açúcar. Como eu estava aposentado, e nada me prendia em São Paulo, mudamo-nos para cá, embora mantivéssemos, como ainda mantemos, o apartamento de São Paulo.

Criei uma página no Facebook chamada “O Canto da Coruja”. E criei este blog, há algum tempo, em 21 de Março de 2018, que, no entanto, só é inaugurado com este artigo.

Salto, n’O Canto da Coruja, em 7 de Junho de 2020.

3 thoughts on “O Canto da Coruja

  1. Boa noite Eduardo . Estava fazendo uma busca no Google e acabei “sem querer” em sua página. Parabéns pelo texto. Me trouxe muitas lembranças boas.
    Um abraço.
    Alexandre

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